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MARCA DE AMOR

Marca de amor
Eu saí da reunião mais cedo. Estava previsto até o meio-dia e ainda eram onze horas. Beleza, eu tinha uma hora para flautear. Sai no estacionamento de terra. Que porra esse pessoal não asfalta essa merda? Vai sujar meus sapatos. Antes de chegar ao carro percebi o flanelinha se aproximando para pedir dinheiro. Parar no barro e ainda pagar para estacionar.
-    E aí, patrão? - disse o flanelinha com um sorriso no rosto.

Não respondi. Entrei no carro e bati a porta. Ele se aproximou e deu umas batidinhas no vidro ao meu lado. Liguei a ignição, abri o vidro e olhei para ele. Tudo que eu queria era ir embora e garantir que na próxima vez que parasse meu carro ali ele não seria riscado. Sem desembolsar nada, lógico.
-    Tem um trocado aí, patrão? - pediu ele.
-    Para que trocado? - perguntei esperando a resposta padrão: para o almoço.
-    Pra pinga - respondeu ele.

Fiquei olhando a cara do sujeito por alguns segundos antes de ser capaz de dizer alguma coisa. “Taí algo que não se ouve todo dia”.
-    Sério que você tá me pedindo dinheiro para tomar pinga?
-    É - respondeu com o mesmo sorriso no rosto.

Olhei o relógio. Passavam cinco minutos das onze. Ele continuava parado ao lado da janela do carro, tranquilo, e eu sentado dentro. Voltar ao escritório, sentar em frente ao notebook. “Que vida pé no saco”, pensei comigo.
-    Ok então, mister sincero. E você vai tomar essa pinga onde?
-    No subsolo do shopping tem um bar - respondeu.

Eu tinha algum tempo disponível. Não iria voltar ao escritório para chegar, subir, esperar pouco mais trinta minutos para almoçar. E me simpatizei com a sinceridade do maltrapilho. Não fez drama, não mentiu e parecia uma pessoa interessante. Tomei uma daquelas decisões por impulso que acabou fazendo diferença em minha vida daquele momento em diante...
-    Vamos lá, então.

Ao contrário do que imaginara ele não se mostrou surpreso nem grato. Apenas esperou até que eu saísse do carro e caminhamos juntos. Ele me guiando. O bar tinha balcão, mas não tinha bancos.
-    Bom dia, Gérson - disse meu companheiro.
-    Opa Wenderson. O que vai hoje? – perguntou o barman.

Wenderson me olhou fazendo expressão de questionamento. Tive o ímpeto de tirar sarro do nome dele. Wenderson. Que porra de nome era aquele? Fiquei com medo que ele me desse umas porradas e não falei nada.
-    Opa. Duas pingas, por favor - pedi eu.

Gérson, o projeto de barman, me olhou com cara de desconfiado. Acho que ficou uns cinco segundos me encarando. Que porra! Eu, um trabalhador, calça social, camisa de marca, gravata de seda e sapato envernizado ao lado de um maltrapilho e eu que devo ser encarado? “Se não quiser ser notado, respeite o dress code até no boteco”, avaliei, rindo comigo. Gerson pegou a garrafa de pinga e serviu dois copos. Eu já ia botando o copo na boca quando o Wenderson levantou o dele em um brinde.
-    Opa! Segura aí, patrão. Vamos brindar - disse ele. Voltei meu copo em direção ao dele. - A esse puta mundo maluco em que vivemos. - Achei engraçado e nossos copos se bateram.

Como ele, virei o copo em uma só talagada. Segurei a tosse e senti o rosto corando. Com os olhos lacrimejando, lembrei que fazia mais de 20 anos que eu não bebia pinga pura.
-    Mais duas - pedi ao Gerson.

A segunda dose tomei devagar. Wenderson teve que esperar com o copo vazio, depois de ter novamente tomado a sua dose em um único gole.
-    Mais uma - repeti ao Gerson, que pela cara estava se divertindo com as figuras que servia.
-    Mermão é  melhor você parar. Pelo jeito você ainda trabalha hoje. Tô certo? - perguntou Wenderson.
-    Porra Wenderson, nem me conhece e já acha que é minha mulher? Ainda tenho quinze minutos de liberdade. Coloca mais uma pra nós Gerson. Saideira - falei tentando controlar o ritmo de minha voz. Já estava ficando bêbado.

Comprei um Halls antes de sair do bar. Cheguei ao escritório pouco depois do meio-dia e o pessoal já tinha ido almoçar. Fui ao restaurante onde eu costumava almoçar com os colegas de trabalho. Apalpei a roupa, encontrei e meti dois Halls na boca enquanto me servia no bufê. Sentei com eles e terminei de mastigar os Halls para poder almoçar. “Será que perceberam que estou meio bêbado?”, pensei. Fiz meu prato e participei das conversas enquanto comia. Para minha surpresa, parecer normal era mais fácil do que pensara à caminho do escritório. Os papos eram os mesmos de sempre e as respostas eram repetições automáticas do que o outro queria ouvir. Mole.

Fui para o escritório, me instalei – e foi então que passei mal e vomitei. “Foda!”, sai murmurando do banheiro. Sentei em frente ao meu notebook meio tonto.
-    Você não está bem. Deve ter comido alguma coisa estragada no almoço. Vomitou né? -  Perguntou um colega.
-    É, vomitei - respondi.
-    Deu para ouvir. Você devia ir para casa descansar - aconselhou. Aproveitei a deixa, levantei-me e fui para casa.

Havia muito o que se fazer no cliente. Após conhecer o Wenderson, eu sempre marcava o início dos trabalhos cedo, às oito, e me esforçava para terminar até às onze. Assim tinha tempo para tomar as cachaças com ele.

Depois de alguns dias éramos amigos. Eu já tinha falado sobre minha família, trabalho, problemas existenciais e ele nada de me falar de sua vida. Eu perguntava. Ele desconversava e contava histórias da rua, de merla, cachaça e loucuras. Desconfiava que havia alguma história de vida interessante ali, escondida. Um dia desci no shopping e passei na livraria. Comprei Factotum, do Bukowski e encontrei Wenderson no estacionamento. Já estava bebendo quase todos os dias com ele. Fomos ao Gérson.
-    E aí, pinguços! - Nos saudou Gérson.
-    Olha o respeito, meu irmão. Desce duas aí - pedi quando ele já estava com a garrafa na mão.
-    Ei, posso ver esse livro? - Perguntou Wenderson apontando para a sacola da livraria.
-    Claro - estendi a sacola para ele. Abriu, pegou o livro.
-    Factotum. Bom! Já leu Misto Quente? - perguntou ele.
-    Caralho Wenderson! Você leu esse livro?

Na época ninguém conhecia Bukowski e quem falava dele, falava mal. Por isso comprei o livro. Queria conferir.
-    Li. Bom demais o Bukowski. Gostei muito do Misto Quente. Explica um pouco a loucura do sujeito.
-    Sério? Eu li e curti muito, também - caralho, lá estava eu, mentindo para um maltrapilho para não ficar por baixo.
-    Então você vai entender a vida de loucura dele – respondeu ele me devolvendo o livro.
-    Não sabia que você curtia ler. Como conheceu Bukowski?
-    Conheci numa outra vida.
-    Porra! Outra vida? Que merda é essa? - perguntei.

Por algum motivo desconhecido ele falou e falou e falou naquele dia. Contou que havia sido arquiteto e que trabalhara em um bom escritório, ali no shopping mesmo. Que sempre gostou de ler e havia lido centenas de livros. Que era casado e tinha dois filhos que moravam no Gama. Que tinha construído uma casa confortável por lá, onde agora moravam sua ex-esposa com seus dois filhos. Que pagou a faculdade de enfermagem dela. Que se entediou e se envolveu com tráfico de merla. Que foi preso e cumpriu um ano e três meses em regime fechado e seis meses no semiaberto. Que ninguém tinha comido a bunda dele - afirmação que duvidei de imediato. Que a mulher o tinha deixado. Que depois disso passou a morar em uma invasão em um hotel abandonado no centro de Brasília. Que fazia quase dois anos que não via os filhos. Quando terminou eu apenas lhe disse: você é um mentiroso do cacete. Ele não respondeu e continuamos bebendo em silêncio.

No trabalho comecei a perceber que o pessoal me olhava de forma estranha. A princípio fiquei preocupado em dar algum problema. Quase todas as tardes eu estava trabalhando meio alto. Só que, passados alguns dias ninguém me perturbou nem perguntou nada. Cheguei a conclusão que, desde que os milhares de reais entrassem no caixa da empresa, eu não tinha que dar satisfações com respeito ao hálito de Halls e a letargia que me acometia após o almoço.

Um dia resolvi tirar a limpo a história do Wenderson. Desci direto ao bar do Gérson.
-    Opa Gérson, beleza?
-    Bom. O de sempre?
-    Não. Uma cerveja.

Ele botou a cerveja e um copo no balcão.
-    Bebe comigo?
-    Não posso. Estou trabalhando.
-    Eu também!
-    Você pode, playboy.
-    Tá, eu bebo sozinho, cuzão. Meu, me diz uma coisa. Você sabe se o Wenderson era arquiteto mesmo?
-    Era. Trabalhava em um escritório aqui mesmo, no shopping.
-    Caralho! Sério?
-    É.
-    E o que rolou?
-    Ele se envolveu com drogas. Tráfico. Perdeu o emprego. Foi preso. Perdeu a família. Essas porras todas.
-    Caralho, que merda.

Sai do bar e encontrei o Wenderson no estacionamento.
-    E aí, veado - disse eu.
-    Fala Rafa. Tranquilo? Bora tomar uma?
-    Hoje não meu velho. Diz uma coisa. Qual a idade de seus filhos?

Ele falou a idade dos meninos. O mais velho tinha a idade do meu caçula.
-    Caralho, que coincidência. Bora marcar uma tarde no Parque da Cidade com os moleques? - sugeri.
-    Não dá. A mãe não quer me ver nem folhado a ouro cravejado de diamantes.
-    Eu falo com ela.
-    E você vai falar o quê pra ela, porra?
-    Falo que sou pastor e que você tá mudado e que vou ao Parque com meus filhos e você estará junto. Que será bom para os meninos verem o pai e brincarem. Essas coisas.
-    Você? Pastor? - riu ele alto.
-    É pô.
-    Qual o nome da igreja?
-    Não tem nome. A gente se reúne nas casas.
-    Tomar no cu. Igreja que não tem nome. E você… pastor. Maior pinguço. Conta outra, porra!
-    É sério - respondi e mostrei meu crachá de identificação, que usava para visitas em hospitais.

Ele pegou o crachá. Olhou a frente, olhou o verso e me olhou. Disse rindo que eu deveria melhorar a qualidade dos meus serviços a Deus. Filho da puta insolente! No fim me passou o número do celular da ex-mulher com a recomendação: “tenta não fazer merda”. Tentei ligar algumas vezes à tarde. Nada. À noite consegui falar com ela.
-    Diana?
-    Sim, quem fala?
-    Oi Diana é o pastor Rafael, tudo bem?
-    Pastor Rafael? De onde?
-    Da igreja Batista - menti para não ter que explicar o motivo da igreja não ter nome.
-    Sim, pastor. Tudo bem. O que deseja?
Expliquei que o Wenderson estava frequentando a igreja (menti de novo), e que tinha parado de beber (menti mais ainda) e que ele estava com saudades dos filhos - enfim uma verdade. Disse que iria ao Parque da Cidade no sábado à tarde com meus filhos e o Wenderson iria comigo. Expliquei como seria legal se ela fosse, levasse os meninos, que meu filho tinha a mesma idade do dela  e blá, blá, blá. Ela topou.

Não foi difícil convencer Susana a passear com os meninos no Parque da Cidade com outro casal. E fomos. Nos encontramos na Nicolândia. Do meu lado eu, Suzana, Lucas e João e do lado de lá, Wenderson, Diana, Roberson e Wellington. Wenderson de calça jeans e camisa social manga curta. Sóbrio e cheiroso. Cheiroso até demais. Evitei ficar por perto. Fiquei me perguntando onde ele teria se arrumado. Todos no Parque de bermuda e só ele de calça debaixo do glorioso sol brasiliense.

Foi uma tarde boa com os meninos. Wenderson viu os filhos. Todos brincaram, comeram pipoca, andaram na montanha-russa, roda-gigante, carrossel, bate-bate e tudo o mais. Conversei com Diana e ela aceitou deixar o pai ver os filhos nos finais de semana. Para convencê-la eu tive que repetir a lorota de que ele estava indo à igreja. Aconteceu que essa lorota se tornou verdade. Ele acabou frequentando a igreja na qual eu era pastor. Virou crente, como se diz. E pouco depois ele e a ex voltaram a morar juntos.

Um efeito colateral do Wenderson ter passado a ir à igreja foi que perdi meu amigo de pinga. Além de não beber ele ficava me regulando. “Ô pastor, não bebe não. Tem que dar exemplo, pastor. Isso é hipocrisia pastor, pregar domingo e beber na semana”. E pior, toda frase tinha a palavra pastor meio. A vida é foda! Impossível ganhar todas. Ganhei um fiel, perdi um amigo. Ossos do ofício. Achei que mais uma mentirinha não faria mal e anunciei que parara de beber. Ele só não sabia que eu parara de beber com ele. Passei a andar com um cantil de uísque para todo canto. E bebia sozinho, escondido. Era Halls no trabalho, Halls no estacionamento do shopping, Halls nos clientes, Halls em casa. Wenderson tinha voltado a morar com a mulher e tudo ia bem em sua nova vida. Eu não suportaria estragar isso por não conseguir tomar uns gorós sozinho. E o projeto no cliente ia de vento em popa. E nós continuávamos indo ao Gérson frequentemente.
-    Opa Gérson, tranquilo? Uma coca para nós aqui.
-    É pra já, moças! - respondia ele colocando duas garrafas de vidro e dois copos no balcão.
-    E aí, Wenderson, como está Diana? - eu perguntava.
-    Ela está bem e a Susana? - era a vez dele.
-    Está bem também. E os meninos?
-    Estão ótimos…  - e a conversa fluía nesse ritmo. Bem parecida com as de meu horário de almoço.

Enfim, a vida estava andando por um caminho pavimentado. Poucos solavancos. Até que, em um domingo, perto da hora de eu sair para o culto, o telefone de casa tocou.
-    Alô. Pastor Rafael?
-    Sim. Diana?
-    É pastor. Você tem que me ajudar. O Wenderson bateu no meu irmão. Ele bateu em mim. Veio uns policiais aqui em casa. Ele arrombou a janela. Vai me matar. Os meninos estão no quarto. O meu irmão saiu de casa. Ele está com satanás. Eu tenho certeza. Ele está com satanás! – a mulher era uma metralhadora de palavras.
-    Opa, opa, opa. Calma Diana. Não estou entendendo nada. O que está acontecendo por aí?
-    Se ele entrar eu mato. EU MATO ELE! Com certeza. EU MATO ESSE FILHO DA PUTA - berrou ela ao telefone.
-    Calma Diana. Vamos conversar.
-    Eu estou com a faca aqui pastor. Eu tranquei a porta e ele quer pular pela janela pra entrar aqui. Se pular eu mato.
-    Ei Diana, CALMA! Dá para eu falar com o Wenderson?

Silêncio seguido de barulho de telefone caindo no chão.
-    Oi Rafael. A Diana está doida. Me trancou pra fora de casa. Está com uma faca na mão. Vou pular a janela e tomar a faca da mão dessa puta.

A situação era tensa e inesperada. O casal estava junto e bem há quase dois anos. Não sabia o que tinha ocorrido e muito menos o que fazer.
-    Calma, meu irmão. Respira e me explica o que está acontecendo. Eu estou com vocês – falei, no tom mais calmo que consegui simular.
-    Ela chamou a polícia, Rafa. Essa vagabunda chamou a polícia. Eles vieram em minha casa. Me bateram. Me expulsaram. A polícia, porra! PO-LÍ-CIA! Ela é louca. Na frente dos vizinhos, porra! Eu vou entrar lá. Vou tomar a faca dela.
-    Peraí meu irmão. Sério, Wender... ESPERA! Me diz só uma coisa. Beleza? Só uma coisa.
-    Tá.
-    Onde você está?
-    Aqui. Do lado de fora     DA PORRA DA MINHA CASA - gritou.
-    Ok, ok. Calma. E o que você está vendo?
-    A PORRA DA MINHA MULHER COM UMA FACA NA MÃO!
-    Ah! Ok, ok. Fica calmo. Fique aí onde você está agora. Certo? Você tem que se acalmar pra resolver…
-    ACALMAR O CARALHO! Eu vou entrar NA MINHA CASA.
-    Wender. Me escuta. Escute, é sério. Posso orar por você?
Silêncio.
-    Wender, eu vou orar por você. Só escuta. Ok? Deus... abençoe a vida do Wenderson... Cuida dele… Da Diana… Dos meninos… Eu repreendo todo o mal que está querendo destruir essa família… - o telefone desligou.

Tentei ligar inúmeras vezes no celular dele. No da Diana. Nada. Só caixa postal. Não foram para o culto à noite. Pensei em pegar meu carro e ir ao Gama para checar o que tinha ocorrido. Mas não o fiz. Não dormi naquela noite. Esperei Suzana pegar no sono e fiquei na sala até terminar o que restava da garrafa de uísque. Saí para andar. Dormi pouco antes do amanhecer.
Liguei para o trabalho avisando que não estava passando bem. Fui direto ao estacionameno do shopping tentar notícias do Wenderson. Era cedo e não tinha ninguém por lá. Pouco antes das nove chegou Ronaldo, outro flanelinha da área. Ele também estava frequentando a igreja.
-    Bom dia Ronaldo.
-    Bom dia pastor. Não foi trabalhar hoje não?
-    Rapaz. Você tem notícias do Wenderson?
-    Não. Logo ele chega por aí.

Mas não chegou logo. Chegaram os outros e nada do Wenderson. Percebi que o pessoal ficou apreensivo. Talvez mais por eu estar ali cedo, com aquela cara, do que pela ausência de Wenderson. Não falei nada do que eu sabia do dia anterior. A meu redor, o trabalho dos que guardavam e lavavam os carros continuava - e eu ali, sentado na mureta, esperando. Perto da hora do almoço Wenderson chegou, sujo, cheirando cachaça, cabelos desgrenhados e com uma camisa grossa de flanela fechada até a gola.
-    Caralho, Wenderson. Onde você estava porra? Fiquei preocupado contigo.
-    Pastor, você tem que parar de falar palavrão - respondeu ele em voz pastosa. - Não pega bem para você, não sabe?

Fiquei em silêncio. Os outros vieram e o cumprimentaram. Voltei a sentar na mureta. Ele sentou a meu lado. Ficamos quietos por alguns minutos.
-    Ontem foi foda Rafa - ele quebrou o silêncio.
-    O que aconteceu meu irmão?
-    Ah, meu velho. Muita coisa. Muita coisa - respondeu e ficou olhando para longe em direção ao estádio, que se mostrava um pouco adiante.

Fiquei quieto, esperando. Após alguns minutos de silêncio ele contou tudo em detalhes. Disse que havia meses que estava sem beber e que havia combinado com a Diana de não beber mais. Depois de seu último porre Diana só permitiu que ele entrasse em casa após a promessa que largaria a bebida de vez. Na casa moravam Diana, os dois meninos e o irmão dela, Antônio, um adolescente. Naquele domingo Wenderson havia saído cedo para comprar leite. Encontrou, à caminho da padaria, velhos amigos no bar e papo vai, papo vem, começou a tomar cerveja. Após algum tempo Antônio veio à sua procura e o encontrou no bar. Ficou provocando dizendo que a Diana iria expulsá-lo de casa quando soubesse que ele estava bebendo. Ele deu alguns murros no moleque que voltou para casa praguejando.

Wenderson deixou a cerveja de lado e engatou na pinga. Logo depois chegaram Diana e Antônio ao bar. Ela gritando, reclamando que ele havia batido no garoto. Que estava bêbado no domingo de manhã. Que era um imprestável. Que não conseguiu seu emprego de arquiteto de volta. Ele tentou argumentar que não estava bêbado. Ela continuava discutindo, falando alto e ele a chamou para conversarem fora do bar.  Acabaram discutindo feio e ele bateu nela.

No início da tarde Wenderson voltou para casa, cambaleante e quieto. Logo se deitou. Nem Diana nem Antônio falaram nada. Só acordou quando foi sacudido por um soldado da PM que Diana havia chamado. Ela contara à eles que o marido havia batido nela e no irmão. Os policiais o colocaram para fora de casa e disseram que não retornasse enquanto Diana não autorizasse. Que se voltasse seria preso e tinha sorte que Diana não queria dar queixa.

Wenderson então voltou ao bar e tomou todas que conseguiu. Retornou para casa no início da noite e bateu na porta. Queria entrar. Diana não abria. Ele disse que era seu direito, que a casa era sua e que não faria mal a ninguém. Que iria dormir e consertar tudo no dia seguinte. Diana não abriu. Ele arrombou a janela da sala. Disse que iria dormir em sua cama de qualquer jeito. Diana foi à cozinha e voltou com uma faca e o celular nas mãos. Foi quando me ligou. Depois eu pedi para falar com a Wenderson e ela jogou o celular para ele, fora da casa. No fim ele largou o celular e pulou a janela. Ela o esfaqueou.
-    O que? Ela te esfaqueou? - perguntei aturdido.
-    Marca de amor - foi sua resposta.
-    Deixa eu ver - pedi.

Ele tirou a camisa de flanela. Sua camiseta estava grudada em seu peito, totalmente empapada de sangue. Eu nunca eu tinha visto algo semelhante.
-    Caralho, Wenderson. Que porra é essa? Deixa eu ver essa merda de facada.
-    Marca de amor - repetiu - e olha o palavrão, pastor - emendou antes de tirar a camiseta.

O corte era grande, bem no meio do peito, entre os dois mamilos. Estava sujo. Sangue seco ao redor por todo o tórax e barriga.Escorria um filete fino de sangue fresco do meio do ferimento. Juntou o pessoal do estacionamento. Todos juntos falando. “Ohhh cara, o que é isso? Caralho você tem que ir ao médico. Que merda é essa? Quem fez isso?” E coisas assim.
-    Wenderson, cara, vamos ao Hospital de Base, meu irmão. Um médico tem que ver isso.
-    Você acha mesmo?
-    Acho mesmo seu lunático. Vamos logo.
-    Ok, você que manda, patrão - respondeu Wenderson vestindo a camiseta, dura de sangue, e a camisa de flanela por cima.

Demos entrada no Hospital de Base e ele foi atendido por um médico novo. Percebi que ele tentou disfarçar o horror ao olhar o estado do ferimento quando Wenderson tirou a camiseta. Ele queria chamar a polícia e com algum custo eu o convenci a não fazê-lo.
-    Humm, é... isso não está com cara boa… Não mesmo... A sorte é que parou no osso... Não entrou… Talvez você estivesse morto agora. Se tivesse entrado, hein...? Vamos ter que limpar para ver o que podemos fazer.

Ver o que podemos fazer? Que porra era essa? O cara era médico ou não? Pelo amor de Deus o que aconteceu com esse mundo? Fomos a uma outra sala. Uma enfermeira pediu para que ele deitasse em uma maca. Era uma mulher bonita e simpática. Wenderson brincou um pouco com ela. Ela sorriu e limpou o ferimento com cuidado. Atenciosa e tranquila. Deveria ter estudado medicina, mas aí, talvez, virasse uma babaca sem coração. Depois de limpar o sangue seco o ferimento pareceu ainda maior. Ela disse que teria que dar pontos e saiu. O médico veio e explicou que Wenderson deveria ter vindo na hora em que o corte fora feito, que havia um grande risco de infecção e que iria dar pontos, mas não seria possível  juntar bem as bordas do ferimento, por isso ia ficar uma cicatriz grande. “Que bom”, foi a resposta de Wenderson.

Foi a enfermeira que deu os pontos. O médico veio ver depois de tudo feito, olhou, e deixou uma receita de anti-inflamatório. Saímos e passamos na farmácia para comprar o remédio. Wenderson já estava sóbrio e fomos tomar um caldo no começo da Asa Norte.
-    E aí, Wenderson? Como você vai fazer para se reconciliar com a Diana?
-    Mandar flores?
-    Tá sendo irônico, né?
-    Não. Mandar flores. Falo sério.
-    Você é um escroto. Acabou com a chance de arrumar sua vida.
-    Minha vida é arrumada, porra. Não posso garantir a vida da Diana. Mas a minha eu garanto.
-    Como assim? Do que você está falando? Vocês têm filhos.
-    É. Eu sei.
-    Então?
-    Rafa, me responde uma coisa. Você leu Misto Quente?
-    Misto Quente? Do que você está falando?
-    Misto Quente, porra! Você leu ou não leu?
-    Que Misto Quente?
-    Eu sabia! Desde o começo eu sabia que você não tinha lido. Você é um mentiroso - falou calmamente.

Fiquei olhando a cara dele por um tempo. Era um rosto redondo e cheio de marcas de expressão, acentuadas pelo bronzeamento de quem fica sempre exposto ao sol. O cabelo castanho, encaracolado um pouco acima da orelha. Não era um rosto feio, meio estragado, digamos envelhecido, mas agradável. Tentei visualizá-lo na época em que era arquiteto. Não conseguia. E ele continuava tomando o caldo. Tranquilo. Me olhava entre as colheradas. Eu não lembrava de nada sobre que bosta era Misto Quente. Não fazia a menor ideia do que ele estava falando e nem por quê me chamara de mentiroso.
-    Aí, vai esfriar seu caldo - ele disse no intervalo entre as colheradas.

Continuei calado e não tomei o caldo. Esfriou. Levantei-me em silêncio, com a comanda na mão em direção ao caixa, paguei e saí. Wenderson veio atrás.
-    Rafa, vamos tomar uma?
-    Hein? Tomar uma? Você está tomando remédio, gênio.
-    Tomar uma. Em homenagem às mulheres. Que mal isso pode fazer?
-    Às mulheres?
-    É. Vamos logo.
-    E por que não?

Fomos ao Pão de Açúcar e comprei uma garrafa de Jack Daniels. Wenderson me esperou no carro. Ficamos ao lado do Museu Nacional e bebemos tudo. Brindamos às mulheres, à vida, a Brasília, a Deus e a tudo mais. Eu tinha meu amigo de volta. O fiel, entretanto, já havia ido embora. Deixei Wenderson na rodoviária e fui para casa. Aquela foi a última vez que o vi por um longo tempo. Ele deixou o estacionamento. Vendeu o ponto para um outro maltrapilho. Sabia que esses pontos são comprados e vendidos? Eu não. O que importa é que ninguém sabia de seu paradeiro. Diana também não tinha notícias dele. Rodei Brasília, Gama, Taguatinga, Ceilândia. Nada de Wenderson.

Acho que se passou mais de um ano até que o reencontrei. Eu estava parado no sinal para sair na W3, voltando do almoço para o trabalho. Dois Halls na boca. Veio um maltrapilho na direção do carro. Só percebi que era o Wenderson quando ele bateu na janela. Abri o vidro.
-    Onde você andava, seu veado?
-    E aí, patrão. Tem um trocado para a pinga? - perguntou ele com o mesmo sorriso estampado no rosto. O sorriso que eu conhecia e sentia falta.
-    Sua bicha. Agora eu li Misto Quente - respondi com um sorriso. - onde você andava? Não te vi mais desde a facada.
-    Que facada? É marca de amor, pastor - respondeu levantando a camiseta.

A cicatriz estava lá, bem no meio do peito. Uma queloide no formato de um coração. Definitivamente ele tinha classe.

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IMPORTANTE: Manter a linha acima em republicações.

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